21/12/2009 - Origens Desenvolvimentistas da Saúde e da Doença
Este texto é um texto mais técnico e você poderá ter alguma dificuldade em alguns pontos.
O que pretendo é mostrar o que se faz e o que se pensa em termos de saúde.
Como são importantes os primeiros anos de vida, a maneira como ocorreu a gestação, e as conseqüências decorrentes de uma adaptação funcional, que poderão determinar como será o estado de saúde da pessoa.
Desaconselho quem não é da área de saúde aprofundar-se no texto nas referencias citadas, qualquer duvida ou curiosidade poderá ser-nos solicitada através do nosso site, estarei a disposição.
Origens Desenvolvimentistas da Saúde e da Doença
(Developmental Origins or Health and Diseases-DOHaD)
Esta nova ciência baseia-se em estudos epidemiológicos em todas as partes do mundo, com o objetivo de relacionar fatores ambientais no inicio da vida e sua expressão na carga genética do indivíduo, determinando um padrão de saúde e doença.
Através de estudos clínicos e pré-clínicos pode-se acompanhar um sequenciamento de eventos que se originam principalmente na vida intra-uterina e nas fases iniciais da vida extra uterina.
Estes achados apontam para novas pontes de causalidade, sugerindo a possibilidade de precoces ajustes metabólicos que em ultima analise determinarão desfechos mórbidos ou não ao longo da vida.
A evolução no atendimento aos recém nascidos, em especial os pretermos, na década de 60 possibilitou o surgimento de doenças hoje muito conhecidas nesta categoria de pacientes, e apenas para citar algumas estão à membrana hialina, enterocolite necrotizante e displasia broncopulmonar.
Porém, estas patologias e outras permitem situações adaptativas a longo prazo através do binômio mãe filho, com objetivos de proteção ao feto, porém com possibilidades de desfechos mórbidos no futuro desse indivíduo.
Na década de 70, Ravelli et al. estudaram uma população de 300.000 homens, filhos de mulheres expostas a um período de escassez alimentar (fome holandesa), na segunda grande guerra.
Na vida adulta apresentaram padrões diferenciados de composição corporal, estes dependentes da idade em que tinham sido expostos á desnutrição materna durante suas vidas intra-uterinas.
Assim se a desnutrição fosse no primeiro trimestre de gravidez tinham baixa incidência de obesidade na vida adulta, mas se a desnutrição se estendesse até o primeiro semestre, a obesidade aumentava sensivelmente neste grupo.
Outro indicador importante, o Baixo Peso ao nascer, é fator determinante na doença cardiovascular no adulto.
Biologicamente, estes indivíduos são diferentes, pois serão acometidas de alterações dos lipídeos plasmáticos, artérias menos elásticas, maior incidência de Diabetes tipo 2, redução da densidade óssea, padrões de secreções hormonais diferenciadas e uma maior ocorrência de depressão.
Dentro destas observações, Döner et al e Alan Lucas determinaram que insultos aplicados sobre o feto em momentos críticos de sua vida intra-uterina podem ter efeitos duradouros ou persistentes sobre a estrutura e função de um organismo.
O desenvolvimento e a gravidade de diversas condições mórbidas dependem da vulnerabilidade genética do individuo, ou seja, quais serão as alterações produzidas em seu gen quando exposto a fatores ambientais adversos? Uma vez que no período de vida pré-natal (também infância e adolescência) períodos estes, definidos como de alta "plasticidade", as mudanças decorrentes destas agressões podem determinar todo um sequenciamento de saúde (proteção) ou doença (agressão) por toda vida.
Outro dado importante na definição de eventos futuros relativos à saúde é o da Constrição materna (http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0004-27302001000100004&script=sci_arttextD). O efeito da constrição materna em primiparas sobre o feto é comparado ao do uso do fumo na gestação.
Doenças materno-placentarias podem exacerbar esta constrição e interferir na programação futura do individuo. Os estresses ambientais, transmitidos pela mãe ao feto através da placenta, produzirão respostas adaptativas preditivas que a longo prazo definiram a condução biológica, necessária à sobrevivência da pessoa, porém, nem sempre de maneira positiva.
Basicamente, os pontos básicos de interferência neste processo são o estresse ambiental sobre mãe-feto, levando ao desencadeamento da hiperreatividade cronificada do Eixo Hipotalamo-Hipofise-Adrenal (EHHA), com suas implicações sobre a nutrição, metabolismo, crescimento e reprodução.
Assim há evidencias de que um organismo em desenvolvimento teria a capacidade de prever o ambiente na qual crescerá, utilizando-se de sinais hormonais maternos (placenta e aleitamento).
Estes sinais possibilitariam ao feto (ou criança), ajustar sua fisiologia de acordo com a interferência em questão. Se a previsão biológica for correta, o risco de doenças será baixo, porém se a interferência for errônea, haverá um aumento no risco de doenças, que provavelmente se manifestarão após o período reprodutivo na vida adulta.
Portanto, o risco de doenças será o resultado do grau de concordância ou de contraste entre o ambiente previsto pelo individuo durante o período de alta plasticidade e o ambiente real em que este individuo viverá na maturidade.
Pelos motivos acima descritos, a epignetica (estudo das alterações herdadas da expressão gênica, que não são devidas á seqüência de nucleotídeo do DNA) tornou-se um modelo fundamental de pesquisa da DOHaD.
A interferência de fatores ambientais durante o desenvolvimento dos seres humanos podem originar importantes relações de causalidade em nível celular, regulando seu crescimento e diferenciação tecidual, estes envolvidos em alterações químicas do DNA, ou de proteínas associadas (como as histonas que ligada ao DNA formam a cromatina).
Cria-se assim um padrão de informação hipergenético que será transmitido em sua especificidade através de mitoses, mantendo um perfil gênico que poderá ser benéfico ou não ao organismo humano.
Estes achados apontam para a necessidade de pesquisas mais orientadas e de ações relacionadas ao atendimento médico no dia a dia, objetivando a inibição de gatilhos que em última analise possam desencadear eventos adversos á saúde do individuo, com ênfase ao período gestacional, infância e adolescência.
Nº 01 Dezembro de 2007 Pagina 01
Resumo do Artigo com Referencias bibliográficas
Fonte:Artigo de Revisão:DOHaD
JPediatr(RioJ).2007;83(6):494-594
Patrícia P.Silveira;Andre K. Portela;Marcelo Z.Goldani;Marco A. Barbieri
(UFRGS;UF)