17/08/2009 - Conhecendo melhor a Alimentação no Primeiro Ano de Vida
Este é um assunto que sempre envolve toda a família.
A expectativa de ver um bebê comer é sempre grande. Porém, nos dias atuais nós aprendemos que a alimentação no primeiro ano de vida deve ser orientada com alguns cuidados.
É sobre isto que falaremos neste texto.
Espero que seja proveitoso !!
Quando falamos sobre alimentação no primeiro ano de vida, estamos na verdade chamando a atenção para os seis primeiros meses.
Nós devemos ter alguns cuidados porque a oralidade (prazer concentrado na boca) a que o bebê está submetido neste período de sua vida, pode ser um fator de risco, quando ocorre o uso inadequado e precoce de alimentos variados, sem trazer nenhum beneficio a estas crianças.
Com o desenvolvimento do conhecimento da fisiologia dos recém-nascidos, principalmente a partir da década de 60, nós observamos que, quanto maior for a variabilidade de alimentos oferecidos e quanto mais precoce for esta introdução, maior será a chance de expor esses recém-nascidos a riscos variados à sua saúde.
Os principais riscos seriam: a intolerância alimentar, as gastroenterites, processos alérgico-respiratórios ou dermatológicos e uma série de outras doenças associadas a esta pratica como veremos à frente.
Para melhor entender a necessidade de cuidados com a alimentação de bebês vale enfatizar alguns aspectos do funcionamento destas crianças.
Entre os mais importantes enumeramos os endocrinológicos, neurológicos, enzimáticos digestivos, seletividade na absorção de nutrientes, imunológicos e renais.
Se pensarmos que um ser humano inicia a produção das células de gordura entre vinte e oito semanas de gestação até o final do primeiro ano de vida, começaremos a entender que a alimentação do bebê deveria nos preocupar no que diz respeito à quantificação de calorias oferecidas nas refeições.
Teoricamente, quanto mais células de gordura estes bebês venham a produzir no primeiro ano de vida, maiores serão as chances deles se tornarem adultos obesos, com todas as conseqüências que a obesidade traz: hipertensão arterial, diabetes, neoplasias, entre outras.
Esse é um fator importante para a aplicação de cuidados na orientação de familiares, a uma adequada alimentação nessa fase da vida.
Um outro aspecto também relevante é a função neurológica.
Sabemos que os bebês nascem com reflexos primitivos, bastante incoordenados e que ganham, à medida, em que os primeiros meses passam, uma série de níveis de organização que vão lhes possibilitar funções mais aprimoradas ao longo da vida.
Até em torno do quarto mês de idade, o bebê tem dificuldades na coordenação do processo da deglutição, sustentação e coordenação dos movimentos da cabeça.
Se ele receber alimentos variados, precocemente, em quantidade aumentada, terá dificuldades para rejeitá-lo quando estiver saciado.
Neste caso, estaremos aumentando a ingestão de calorias e sua conseqüente contribuição de ganho de peso acima do ideal.
Somando-se a esses aspectos, teríamos ainda que entender o funcionamento da digestão dos alimentos, através das ações enzimáticas e a seletividade do intestino na absorção destes.
Tomemos, por exemplo, a ptialina (amilase salivar), uma enzima que digere carboidratos ainda na boca, e que só está presente, na espécie humana em quantidades aceitáveis, a partir do quarto mês de vida.
Qualquer alimento, à base de carboidratos, oferecido ao bebê antes desse período, traz o risco de produzir alguma doença digestiva.
Através de outra amilase (amilase pancreática), os carboidratos são também digeridos no intestino, mas ela só é produzida em condições adequadas em torno do quinto ou sexto mês de vida, pelo pâncreas.
Outros nutrientes necessitam da ação de enzimas específicas e dentre estas estão as proteínas.
Elas precisam sofrer ação de substancias apropriadas para que sejam transformadas em aminoácidos, que são as menores partículas oriundas do metabolismo das proteínas.
Isto é necessário,para que a absorção ocorra da maneira mais saudável e fisiológica.
No metabolismo das proteínas é importante a ação da tripsina, que aparece no organismo do bebê após o quinto mês de vida.
É bom enfatizar que se deve ter um bom balanço protéico e de outros nutrientes, porque se é oferecida uma quantidade anormal de nutrientes, em período de maturidade digestiva inadequada ao bebê, isso significa que a proteína e outros nutrientes serão mal processadas e serão absorvidas de forma irregular, oferecendo mais riscos á saúde destes pequenos seres.
Um alimento ingerido será de uma ou de outra forma absorvido para a corrente sanguínea no Intestino.
Aí,um outro fator assume importância a seletividade do tubo digestivo.
A seletividade do intestino encontra-se amadurecida entre o quinto, sexto mês de vida do bebê, ou seja:só será absorvido de maneira adequada quem estiver corretamente digerido, excluindo deste processo os alimentos mal digeridos.
Se começarmos a introduzir muito precocemente alimentos sem respeitar as características funcionais descritas anteriormente (ação das enzimas e maturidade da seletividade digestiva), em muitas das vezes, estes chegarão ao intestino sob a forma bruta, não digerida corretamente,o que implicará em absorção pouco saudável,dos alimentos.
Nos primeiros seis meses de vida, há uma grande produção de anticorpos na espécie humana.
Dessa forma, no primeiro semestre de vida, o organismo passa por um grande processo de catalogação de antígenos (vacinas, vírus, fungos, bactérias, entre outros) que induzirão à criação de uma memória imunológica o mais adequada e o mais eficiente possível.
Essa memória vai nos proteger ou não de maneira eficiente para o resto da vida, dependendo de como ocorram estas interações.
Quando, a seletividade digestiva não é respeitada na introdução de alimentos estes serão mal digeridos e ganharão a corrente sanguínea, criando possibilidades de originar problemas.
O sistema imunológico pode entender isto como uma ameaça à sua estabilidade.
Nos indivíduos com maior propensão a doenças alérgicas, isto pode induzir à produção de anticorpos específicos para este grupo de doenças.
O mais conhecido é o aumento das imunoglobulinas E, popularmente conhecidas como IgE.
Este anticorpo é um importante componente das respostas alérgicas.
Nesta situação, a criança vai apresentar maior propensão, a desenvolver uma dermatite atópica, crise de asma, alergia alimentar, entre outras doenças.
Vamos salientar como um ponto final para essa exposição, que a ausência de maturidade na seletividade do intestino, leva a absorção de macromoléculas alimentares (moléculas muito grandes), poderá levar a uma da sobrecarga da função renal.
A filtração glomerular, que é a responsável pelo equilíbrio de água e de solutos (parte não liquida do sangue), encontra-se amadurecida em torno do sexto mês de idade do bebê.
Sabemos que o nosso sistema de gradiente de pressão na corrente sanguínea é dinâmico e mais água ou menos água será mantida no organismo pela filtração glomerular dependendo do equilíbrio entre a parte liquida e não liquida da corrente sanguínea.
Se houver uma sobrecarga de solutos, estas moléculas, que foram absorvidas para a corrente sangüínea e não conseguiram ser eliminadas em função da imaturidade da filtração glomerular, provocarão um desequilíbrio, obrigando o rim á retenção de água.
Para isto ocorrer, sistemas importantes que estão presentes na origem de boa parte da hipertensões arteriais serão ativados,como o aumento na produção do hormônio antidiurético e a ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona.
Hoje, existem trabalhos levantando suspeitas de que aquelas hipertensões ditas essenciais(em que não se encontra a causa), podem ter origem nos primeiros seis meses de vida das pessoas em função da introdução precoce e variada de alimentos e conseqüente ativação destes mecanismos precocemente.
Resumidamente, estes seriam fatores relevantes da fisiologia dos lactentes que reforçam a importância do leite materno como alimento de uso primordial para a população infantil.
Poderíamos reduzir um percentual significativo de obesos, doentes renais, hipertensos e doentes alérgicos futuros com a simples medida do aleitamento materno
como o mais importante alimento do lactente.
É uma vitória inclusive do Governo Brasileiro que mostrou, em Genebra, na Organização Mundial de Saúde, que o aleitamento materno, nos seis primeiros meses de vida, é um alimento insubstituível e que supre todas as necessidades para o
indivíduo crescer com saúde.
Ele permite um ganho de peso adequado, propicia um amadurecimento saudável do sistema imunológico, o que nos leva à reflexão de que, não só a manutenção do aleitamento materno como único alimento nos seis primeiros meses de vida seja o ideal, mas também que se deve avaliar e assumir criteriosamente, com cuidados redobrados, a introdução precoce de outros alimentos diferentes do leite neste período de vida do ser humano.